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domingo, 20 de janeiro de 2013

Das coisas da terra

O mar é lindo! O mar é poderoso! O mar, eu acho, é invencível! Posso ficar tempos observando o vaivém das ondas, admirando as nuances de cores, o ribombar da arrebentação... Mas eu amo mesmo é a terra! Gosto de pegar, sentir-lhe o calor, a essência! E creio que devo ao meu pai essa ternura imensa que sinto pelas coisas da terra. Ele era analfabeto, sem perspectivas, sem esperanças. Um pobre coitado, na visão de muitos. Com certeza, morreu sem saber o sentido da própria vida. Todo o conhecimento que tinha, conseguiu com a experiência da vida, na observância das coisas. Em seus documentos constava que era lavrador e, durante a minha pequenez eu não sabia o que significava. Hoje eu sei: aquele que lavra, que ara a terra para produzir o alimento. Foi com ele que aprendi a fazer a cova e colocar os grãos. E que prazer ver as plantinhas brotando... Um lavrador consegue apurar o ouvido e escutar as sementes rasgando a terra. Lembro-me dele falando, entusiasmado, sobre a limeira que florira e depois os frutos que se anunciavam. Muito antes disso, quando levava a merenda para ele, no roçado, (eu andava léguas para encontrá-lo e só conseguia porque ia observando qual mato estava mais murcho, aonde ele tinha roçado primeiro) ele me advertia que tivesse cuidado com as jaguatiricas que ainda existiam lá em Onça de Pitangui, e com a vaca de bezerrinho novo que estava “pegando”. Que saudade! É claro que a terra não era nossa: meu pai era empregado. Eu não sabia dessas coisas. Como no livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, a pobreza era tanta que não tínhamos como alcançar a situação de explorados, de subjugados. Eu gostava de andar entre as fileiras das plantações, sentir o verde, a textura de tudo, o cheiro... O feijão, com suas florzinhas roxas, vai se enroscando em qualquer estaca, como num abraço de amor. Quando o vento bate, é lindo ver as folhas balançando, os pendões de milho... São flores. E o arroz, então? As floradas de café, parecendo véu de noiva. E tão cheirosas que os insetos vêm visitar... Para o homem da roça não há nada mais bonito . Naturalmente, gosto de ver grandes plantações, tudo tão organizado. Quando se viaja, principalmente pelo interior de São Paulo ou Triângulo Mineiro, é bonito os tabuleiros com todo tipo de cultura, com os vários tons de verde, as serras azuis lá longe...(Em São Paulo não há serras, coitados!) A riqueza do país... que não chega até ao lavrador . Feita com máquinas. Ganha-se em produtividade, e tantos outros “ades”, até inevitáveis hoje, devido à necessidade da produção de mais alimentos. Mas, perde-se em poesia. E disso posso falar. Deixem-me falar. Da poesia fina, lapidada, mansa, devagarinho. E da poesia bruta que chega aos borbotões, remexendo a vida da gente. Perdoem-me, mas não conheço nenhuma palavra, nenhuma obra, sobre grandes plantações. Conheço muitas que falam daquele solitário que vai cova por cova sulcando, com profundo respeito, a Mãe Terra. Daquele que, como meu pai, por todos os confins, observa o tempo, o clima, o espaço e atribui a Deus Misericordioso a existência de tudo, com todos os seus mistérios. Como os lavradores mexicanos que cuidam da preservação das diversas qualidades de milho que só existem lá, por ser o berço desse grão. Eles acreditam que o País só existe enquanto existir o milho. Com eles, finalmente, entendi porque meu pai ralhava comigo toda vez que eu trançava os cabelos das espigas novas ainda no pé. Como eu não tinha bonecas gostava de trançar aqueles cabelos de cores variadas, tão macios! Cada fio de cabelo é um grão de milho. A minha brincadeira não deixava a espiga vingar. Perdoe-me, meu pai. 

                                                                                                                  Lécia Conceição de Freitas

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Memórias: O Natal

A ideia que faço do Natal está muito presa às lembranças que tenho do tempo que era criança e morava em Onça de Pitangui. Eu morava com minha avó e meus irmãos e a pobreza era absoluta. Ainda assim foram os melhores Natais. Eu acreditava em Papai Noel. No entanto, eu achava que ele nunca deixara um presente pra ninguém lá em casa porque não tínhamos sapatos para deixar na janela. Ninguém tinha sapatos, então, não era uma coisa que fizesse falta. Na verdade, todo mundo lá era muito pobre e não tinha esse negócio de ganhar presente. Portanto, as coisas não me faziam falta porque eu desconhecia a existência delas. Eu gostava do clima do Natal: o Presépio da igreja, nossa, era lindo! Na casa de minha tia, ocupava um quarto! Ela plantava arroz para fazer a grama verdinha, o espelho onde colocava os patinhos, ah, era tudo tão lindo, e eu era tão feliz! Era tempo de manga, de chuva, de férias, e embora eu, sempre, gostasse demais da escola, as férias era tempo de muitas brincadeiras. As professoras eram sempre as mesmas, mesmo assim havia uma expectativa sobre qual seria no próximo ano. Quando me tornei moça, essas expectativas se resumiam ao fato de, nessa noite, poder ficar no footing que havia na Rua Direita até mais tarde. Naquele tempo a gente namorava só de olho, então, era um tempo a mais prá ver a pessoa de quem gostávamos. Os rapazes ficavam parados assim, um do lado do outro, e nós, moças, passávamos prá lá, prá cá. Ir à Missa do Galo era fundamental, à meia noite em ponto. Em outra época, quando meus filhos eram pequenos, lembro-me de que os Natais eram cheios de magia e de encantamento. Foi um tempo de extrema pobreza. Tanto em Betim, quanto aqui em Pará de Minas, a gente enganava a fome. Eu era muito magra e meus meninos tinham aquela palidez própria de quem tem deficiência de tudo. Ao se aproximar o Natal, eu enfeitava a casa com galhos secos do jeito que dava, e era uma festa. A felicidade era maior quando ganhávamos uma cesta básica. E se tinha um pacote de biscoito então!... Tínhamos um sofá na sala, então deitávamos os quatro e cantávamos a Jesus Salvador. Não havia nada bonito, mas eu os tinha meus, meus filhos, no meu colo, e eu era tão feliz! O tempo passou, eles cresceram, estão trabalhando, estudando, (até eu estudo!), as coisas melhoraram. Mas ledo engano, a mãe que pensa que os filhos são para sempre. Pelo menos, não no meu caso. As minhas ausências, tanto sofrimento, foram determinantes na formação da personalidade de meus filhos. Cresceram por si, sozinhos, porque eu tinha que trabalhar. Hoje eles querem o que não tiveram, as diversões, as alegrias... Não posso nem criticar. O amor, ah esse?!, ficou lá no sofá, no galho seco, no tempo que passou. Eu os criei do melhor jeito em que acreditava, no entanto, hoje a casa está enfeitada, até "chiquezinha", mas eu, eu estou sozinha. Com certeza, vou passar o Natal passeando pelos blogs. Sonhando, sonhando...

                                                                                                                                         Lécia Freitas

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Memórias



OS ANJOS DA VIDA DA GENTE

           Quando o pai dos meus filhos resolveu ir embora (e essa foi a melhor coisa que ele poderia ter feito), ele chamou o dono de uma loja de móveis usados e vendeu tudo que era nosso. Tudo. Sem fogão, sem camas, até para os meninos. É claro que chorei, é claro que me desesperei. Mas foi só por um momento. Arregacei as mangas e comecei a luta. Um passo de cada vez. Um dia de cada vez. Não havia expectativas. Não havia esperanças.
           Trabalhei dia e noite, noite e dia. Não havia tempo para ser mãe. Perdi muito da infância e adolescência dos meninos. Na verdade eles também não viveram essas fases. Não teve como. Não eram permitidos sonhos. Toda a energia era gasta em sobreviver.
 Devo dizer que aos poucos foram aparecendo os anjos. Todos aqueles que me ajudaram. Não dá prá dizer quantos. Eu costumo brincar que se ganhasse na megasena e fosse retribuir a todos  não sobraria nada. Havia uma senhora, Clarice, que ficava esperando os meus filhos no caminho da escola e lhes dava merenda. Ela era empregada doméstica como eu porém, tinha uma situação financeira melhor que a minha. Foi dessa maneira que eles conheceram iogurte, biscoitos recheados, essas coisas que as crianças gostam. Não posso me esquecer de Vera, que sempre me dava pão, leite... Minhas primas Marília e Lilia... Tantas,  tantas...
             Meu cunhado deu-me duas camas onde dormíamos os quatro. Era apertado e eu queria pelo menos mais uma cama. Era época de Natal e havia uma promoção na cidade – Natal dos Sonhos – que bastava escrever uma cartinha para o Papai Noel e ser sorteado para ganhar e realizar o seu sonho.  Eu mandei "nnnnnnn" cartas na esperança de ganhar a cama. Não ganhei. Na época trabalhava de doméstica na casa do presidente da Ascipam – Associação do Comércio de Pará de Minas. No dia seguinte ao sorteio conversando com minha patroa sobre o sucesso da promoção, fiz um comentário a respeito de minha decepção por não ter conseguido ganhar. No domingo seguinte fui surpreendida com a chegada de meus patrões em minha casa. Com a cama, o colchão e até os lençóis. Digam-me, não são anjos?!

                                                                                                                Lécia Conceição de Freitas

domingo, 18 de março de 2012

Memórias


Minha Família, como não amar?!


- Alô, Liana?
- Oi, tá boa?
- Ah , eu não estou boa não. Quebrei um pau no ouvido.
- O quê? Como assim, você está surda?
- Não, quebrei um palito de fósforo no ouvido, estava coçando.
- Santíssimo Sacramento! E agora?
- Não sei não.
- Que foi, mãe? (Uma segunda voz no telefone).
- Sua tia quebrou um palito no ouvido.
- Vai ter que ir ao PA.
- Elaine falou que tem que ir ao PA.
- Fala com ela, pra ir se arrumando que eu vou passar para levá-la.(Uma terceira voz no telefone.)
- Não precisa, vou a pé.
- A gente se encontra lá então.
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- Será que é grave?
- Não é não, mãe
- E se o palito for para o cérebro?
- Que isso, mãe , não tem como!
-Como você sabe?
- Mãe, eu fiz Biologia, lembra ? Não tem como.
- A sua Biologia não sabe de nada. O palito vai andando lá dentro.
- Érica, não responde sua mãe!
- Viiiiiu, pai, viu. Vamos depressa então.
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No colégio:
- Alberto, sua tia ligou. É pra vocês irem embora. Sua mãe está no PA. Parece que é alguma coisa no cérebro.
- Ai meu Deus, vou avisar a Luhara!
- Luhara, a mãe está no PA. Deu alguma coisa no cérebro.
Um colega de sala está passando.
- Ô meu, aqui está a parte do meu trabalho. Não vai dar pra eu falar, a minha mãe está no PA, com alguma coisa no cérebro.
- Pô, cara, sinto muito. É grave?
- Tia Liana ligou, é pra gente ir ficar preparado porque se a mãe tiver que ir pra BH nós vamos pra casa dela.
- BH, por quê?
- Se tiver que operar...
- Ixe.
Outro colega:
- Entra aí, meu, vou levá-los de carro.
- Pô, cara, valeu.
- O que será que aconteceu com a mãe? Será que o véio apareceu e deu um pau nela?
-Cê doido?! Deve ser derrame, ou aneurisma.
-Ixe.
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O colega chega na sala de aula:
- Ô turma, a mãe do Alberto está mal, no PA, está indo pra BH. Parece que está em coma.
- Nossa, vamos rezar um Pai Nosso! Coitado do Alberto e da Luhara!
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No PA:
- Todo mundo já chegou, menos a Lécia.
- Tá chegando, cadê o João?
- Vai saber...
- Como tá?
- bem.
- Coitada, tão nervosa que não está dando fé de nada. Devia ter protegido o ouvido.
- De que, mãe?
- Da friagem.
- A mãe está pior que a tia Lécia, vai ficar doida qualquer hora.
O funcionário, do PA, vendo aquele tanto de gente:
- O que foi, algum acidente, é grave?
- Muito grave, minha irmã quebrou um palito deeeeesse tamanho no ouvido.
- Mas porque ela colocou um palito deeeeesse tamanho no ouvido?
- Prá coçar, o palito quebrou lá dentro.
- Nossa, que gente mais doida!
Depois de muito tempo e de muitas reclamações por causa da demora, chamaram a moribunda.
- Só pode um acompanhante, por favor.
- Assim não é possível, eu tenho direito, sou a irmã.
- Mãe, não convém, a sua pressão pode subir.
- Vai seu pai então.
- Acho que o papai não aguenta, nem eu.
- Os meninos não tem idade pra isso.
- Vai a Érica, ela  entende, é formada em Biologia!
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- E então doutora?
- Não tem nada aqui dentro.
- Mas não é possível, tem que ter!
- A médica lança um olhar furibundo e diz:
- Não tem nada aqui, a paciente está ótima e vocês podem ir embora.
- Mas não vai receitar nada?
- Se ela sentir qualquer coisa durante a noite, amanhã ela pode voltar.
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- Por isso que este país não vai prá frente, tinha que encaminhar pra BH, fazer um exame, talvez precise de cirurgia. Depois a Lécia morre com isso no cérebro, quero ver de quem vai ser a culpa.
- Calma, mãe.
E vão todos embora, frustradíssimos.
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- Qualquer coisa, vocês podem ligar,
- Não é melhor ela dormir lá em casa?
- Não precisa,  muito obrigada! Vou dormir em casa mesmo, estou bem.
- Amanhã você não vai trabalhar. Fica em casa de repouso.

          No dia seguinte, ela aproveita o feriado fora de hora e dorme até mais tarde. Quando levanta vê que a filha já fez quase tudo antes de ir trabalhar. Com cuidado, pra não balançar demais o ouvido, começa a varrer a cozinha. Aí então, lá no cantinho ela vê um pedaço de palito de fósforo quebrado assim meio que na diagonal. Igual ao pedaço que ficou na sua mão quando quebrou ao coçar o ouvido. Ela pega a bolsa e vai para o trabalho.
- Ué, você não estava passando mal do ouvido?!
- Já melhorei, era labirintite.
Achou melhor nem mencionar a palavra palito, senão vai ser motivo de chacota em todas as festinhas familiares e no trabalho.

        Qual desculpa  deu pra família?
-Ah, o palito deve ter dissolvido lá dentro. Ponto de cirurgia 
não dissolve?... Então,  com tanta preocupação
 é bem possível.
Este texto eu escrevi, para fazer uma pequena
 homenagem à minha família que está 
sempre presente em todos os momentos 
de minha vida. O caso é verídico; eu dei 
apenas uma floreada para criar o sentido
 de humor. 
Espero que gostem!

  Lécia Freitas

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A menina e sua mãe


          Naquela manhã, a mãe parecia mais preocupada. A menina aprendera a identificar os sinais. A mãe, calada, passava a mão, seguidamente, na nuca e depois na testa. Como se quisesse tirar dali alguma ideia, uma solução... Além disso, a menina sabia que não tinham nada para acabar com aquela fome que lhe roía por dentro, já àquela hora da manhã. Como ela gostaria de poder ajudar, resolver todos os problemas da mãe... Se pudesse tirar das páginas da revista todas aquelas comidas gostosas, para ela e os irmãos... Talvez sua mãe sorrisse... Ficava tão bonita quando sorria!...
           Ela ouve a voz do irmão mais velho:
           - Mãe, com fome...
            A mãe não responde, não tem o que responder.  A menina sente raiva do irmão. Será que ele não percebe o desespero, a angústia da mãe?  Ela permanece ali no canto brincando com o irmãozinho, enquanto observa a mãe.
            De repente, a mãe se aproxima, pega o filho menor enganchando-o no quadril e diz aos outros dois:
            - Vocês peguem os dois paus do varal e venham atrás de mim. A mãe sai, rapidamente, com os dois filhos atrás tentando acompanhar seus passos. Depois de algum tempo eles param e a mãe entrega o menor à filha, dizendo-lhe:
           - Você fique aqui tomando conta do seu irmão.
           - O  que a senhora vai fazer?
           - Ali tem um pé de abóbora. Vou ver se acho alguma. Menino, pegue o pau para me ajudar, diz ela dirigindo-se ao filho mais velho.
           - Eu não quero ajudar, tô com medo de cobra. Olha o tamanho do capim...
           - Se não ajudar não come. A menina ouve aquilo e pergunta:
           - Mãe, eu ajudando, posso comer a parte dele?
           - Olha  mãe, ela me insultando...diz o filho mais velho, quase chorando.
           -Todo mundo vai comer. Mas tem que ajudar, diz a mãe, apaziguadora, enquanto vai cutucando o capim meloso para afugentar alguma cobra ou outro animal que pudesse molestar a ela ou ao filho.
           - Achei, grita a mãe, mostrando aos filhos uma abóbora verdinha!
            A filha olha, primeiro, o rosto da mãe. A mãe está sorrindo! Vê seu rosto iluminar-se de felicidade e, então, a menina sente vontade de abraçar aquela abóbora! Junto a esse sentimento vem a alegria por saber que logo vão comer coisa. Aproxima-se da mãe e diz:
            - Ô mãe, essa abóbora com arroz vai ficar uma delícia, não vai, mãe?
            - A gente come a abóbora hoje. Outro dia, a gente come o arroz, responde a mãe, enquanto voltam apressadamente. No caminho encontram o avô que está indo para o sítio onde trabalha.
            - Onde ocês tava, pergunta o avô?
            - Nós fomos procurar uma abóbora, no pé que eu tinha visto, outro dia. Olha ela aqui, responde a mãe, mostrando a abóbora.
            - Ô minha filha, isso não é abóbora, é uma cabaça, diz o avô.
            - Não fala isso não, pai, nós não temos nada para comer. Oh, meu Deus, desespera-se a mãe!
Nesse momento , a menina sente tudo de uma vez, como se estivesse em um redemoinho. E agora, como vão fazer? Percebe a decepção, o sofrimento da mãe. Queria inverter os papeis, pegá-la no colo, acalmá-la... Como num sonho ouve a voz do avô...
           - Espia aqui, filha. levando o farelo pros pintinhos do patrão. Você pega um pouco, coa e apura o fubá. Daí faz um fubá suado. Vai dar para matar a fome.
A menina ouve aquilo num misto de alegria e tristeza. No seu coração ela jura pra si mesma:
          - Um dia eu vou crescer, vou trabalhar, e então nunca mais vamos sentir fome.

 Pará de Minas, 26 de maio de 2010

Lécia Freitas



           Esse texto, eu escrevi para um trabalho na faculdade, e relata uma passagem da minha vida.  Foi uma época muito difícil, graças a Deus passou. Hoje, nos esforçamos para sermos felizes, apesar das marcas, profundas, principalmente na menina. Quem sabe algum dia consigamos esquecer.

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